quarta-feira, 19 de abril de 2017

Prédios símbolo de Brasília têm operários que morreram concretados durante a construção da capital, diz pesquisador

Livro revela que acidentes e mortes durante o trabalho eram constantes na época


Quem passa pela Esplanada dos Ministérios hoje não imagina que em colunas de concreto que sustetam os prédios há operários que morreram durante a construção concretados.

Esta é uma das histórias contadas no livro 1.001 coisas que aconteceram em Brasília e você não sabia, de Hélio Queiroz. Após três anos de pesquisa e mais de 2.000 horas em gravações de entrevistas catalogadas, o jornalista constatou que a Esplanada dos Ministérios registrava uma média de três acidentes de trabalho por dia. Sem poder parar a obra ou por risco na retirada, os corpos eram deixados no local, um velório simbólico acontecia e a obra continuava com mais concreto em cima dos corpos. 

No livro consta que, tanto nos ministérios quanto no Congresso Nacional, em razão da altura, as vítimas eram geralmente fatais. Quando os enterros não aconteciam no próprio canteiro de obras as vítimas eram levadas ao Lago Paranoá, já que ainda não havia cemitérios na capital.

Entre os acidentes, a publicação destaca a história de operários que se desequilibraram e caíram dentro da coluna de concreto, no prédio de um dos ministérios e na barragem do Lago Paranoá. Em ambos os casos, seja por falta de autoridade do mestre de obras ou para evitar novos acidentes, a concretagem continuou de modo que o corpo da vítima ficou enterrado dentro das colunas, segundo o presidente do Clube dos Pioneiros, Roosevelt Beltrão.

— Não dava pra abrir as colunas depois do que aconteceu, para evitar um desastre maior e também para não ter prejuízos à obra. Também não dava para parar os trabalhos, porque as obras eram feitas a galope, porque o presidente (Juscelino Kubitschek) tinha uma meta de entregar a capital no dia 21 de abril de 1960, e conseguiu.

Outro local em Brasília com operários soterrados em meio à obra foi o auditório Dois Candangos da UnB (Universidade de Brasília), inaugurado em 1962, como lembra o arquiteto especialista na história da capital, Antônio Carlos Carpinteiro.

— Reza a lenda que o auditório Dois Candangos da UnB tem esse nome porque dois candangos morreram na concretagem da obra. Acidentes de obra devem ter acontecido muitos na época, porque as leis eram muito frouxas, e no meio do mato, sem fiscalização, distante da delegacia que ficava em Goiânia, praticamente ao Deus dará.

Além da pressa para inaugurar a nova capital federal e da fiscalização falha, o principal motivo causador de acidentes era o alcoolismo dos operários, segundo Queiroz.

—Os peões trabalhavam em cavaletes, ficavam em elevadores de madeira sem nenhuma proteção. A principal causa de acidentes era o alcoolismo, pois haviam barraquinhas de cachaça ao lado das construções, daí os operários trabalhavam bêbados e caíam dos andaimes. O número de acidentes era grande, mas na época não podia divulgar, porque tinham que passar imagem positiva para o mundo.

Para escrever 1.001 coisas que aconteceram em Brasília e você não sabia, Queiroz contou com uma equipe com repórteres e bibliotecários, que fizeram entrevistas com mais de 150 pioneiros. Além disso, eles também pesquisaram documentos em locais como os arquivos públicos do DF e Nacional, a biblioteca da UnB e o Instituto Histórico do DF.

O lançamento do livro, em 2014, contou com o apoio da editora do Senac-DF (Serviço Nacional de Aprendizagem no Distrito Federal).

Fonte: Rodrigo Vasconcelos, do R7

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